quarta-feira, 30 de março de 2011

ACEITA UMA PROFECIA?

De tempos em tempos surge na história alguma revelação - algo como um registro que ostenta  a predição de eventos futuros. Fato ou não, muitos deles não chegam a acontecer: é o caso das vezes em que fora anunciado um suposto 'fim dos tempos'. (Essa, os profetas ou os interpretadores dos registros deixados por aqueles, vivem errando feio.) Mas, há casos em que eventos observados no mundo parecem corresponder nitidamente a antevisões desse tipo, e aí, não tarda para aparecer os adeptos das chamadas profecias. Nesse ponto, consideremos a relevância de trabalharmos um exemplo notório: o dos cristãos. Eles, em geral, costumam validar o conteúdo bíblico - sua veracidade e 'sacralidade' - com base em alguns acontecimentos no mundo que, segundo eles, tem nítida relação com o texto canônico, afirmando que as profecias têm se cumprido. Ora, o que na verdade fazem, só pode se tratar de uma análise retroativa, em que, feito um recorte entre bilhões de bilhões de eventos no mundo, busca-se um paralelo ao que fora dito por aqueles escritores, ou seja, ninguém leva em conta a imensurável quantidade de eventos que não foram 'preditos'. No caso, nem precisamos mencionar que a maioria dessas previsões não estabelece datação para a ocorrência dos eventos, e sendo assim, talvez valha lembrar que, em se tratando de tempo indefinido, é também indefinido o número de fatos possíveis de ocorrer, o que deste modo, facilita muitíssimo a relação entre o que é previsto e o que de fato acontece. Esses mesmos cristãos advogam também que uma análise do Novo Testamento revela o cumprimento de profecias encontradas no Velho Testamento. No entanto, sabe-se que os escritores do Novo Testamento tiveram acesso às escrituras hebraicas, e por isso mesmo, nada os impedia que simplesmente criassem narrativas, às quais pudessem ter alguma equivalência com o que já se conhecia (na verdade, é possível que, exatamente, esse tenha sido o critério de seleção dos Evangelhos entre tantas versões da história cristã contemporânea disponíveis à época do Concílio de Nicéia: a sua concordância com o Velho Testamento). Enfim, voltemos à questão inicial com a seguinte reformulação: Seria possível que as chamadas profecias e sua relação com os fatos no mundo fosse apenas coincidências?
Circula na internet um e-mail que relaciona objetos e pessoas dos EUA ao terrível ataque terrorista de 11 de Setembro. Nele, é apresentado, por exemplo, as duas faces de uma nota de vinte dólares, que, dobrada, revela incrivelmente as imagens do Pentágono e das Torres Gêmeas pegando fogo, e ainda, da mesma maneira, aparece a palavra Osama numa das extremidades da cédula. Além disso, há cerca de outras dez correlações a esse evento, envolvendo lugares e nomes de presidentes daquele país. O que se pode dizer nesse caso? que havia predições sobre o funesto acontecimento? Parece-nos improvável, não é mesmo? De fato, se dispusermos de tempo suficiente para uma análise retroativa minuciosa, encontraremos não uma dúzia de equivalências, mas muitas outras. Do mesmo modo, poderíamos elencar milhares de não-equivalências, isto é, inúmeros aspectos em que não se encontra qualquer paralelo entre o evento e esses objetos e pessoas. Pensando bem, são infinitamente maiores os casos de não-coincidências em comparação ao que coincide, mas, nós, seres humanos, temos a tendência de nos apercebermos e darmos destaque para eventos que encontram algum tipo de correspondência no mundo. Vejamos estes outros casos:  1- Toda vez que Thaís atrasa do seu horário normal de voltar para casa à noite, depois da faculdade, sua mãe pensa ter acontecido algo com ela e se aflige com essa hipótese, mas, para conforto dela, a filha sempre chega bem, dizendo ter havido somente dificuldades com o transporte público. Observem que, no dia que vier, e se vier a acontecer um incidente com a jovem, a mãe invariavelmente sentirá e/ou declarará que teve uma espécie de predição, ou presságio daquele evento. 2- Amarildo é um enfermeiro de 40 anos; toda noite ele tem sonhos, sempre variados, múltiplos e desconexos - como a maioria de nós. No dia que sua esposa sofre um grave acidente no trânsito e vem a falecer, ele prontamente correlaciona o fato a um sonho que tivera na noite anterior, no qual socorria uma bonita mulher gravemente ferida numa batida de automóvel. Ora, enquanto esse incidente não ocorreu, Amarildo nunca fazia menção dos sonhos (talvez nem pudesse se recordar deles com exatidão), mas, no momento em que, porventura, um só sonho coincidiu com um evento significativo para ele no mundo real, Amarildo não hesitou em traçar um paralelo de equivalência entre eles, e naturalmente conjecturou tratar-se de uma antevisão, previsão ou predição da morte de sua bela esposa.
Então, chamamos a atenção para essa nossa absurda capacidade de selecionar e correlacionar eventos - apontamos coisas extraordinárias que, de fato, não passam de casualidades (pense por outro lado na infinidade de acontecimentos do mundo real, inclusive simultâneos, que poderiam ser associados diretamente aos sonhos do enfermeiro, mas que, de maneira simples e automática, foram descartados, uma vez que não seriam relevantes para o sonhador em questão). Reunindo esses poucos argumentos (teríamos muitos outros para descrever, os quais, porém, fariam este post longo e cansativo) é que argüimos sobre a aceitação de profecias. Portanto, fiquemos atentos, no próximo ano (2012), caso haja qualquer acontecimento catastrófico, este será, sem sombra de dúvida, o fatídico cumprimento da 'Profecia Maia' - nas bocas e mentes 'inocentes'. (Essa podemos “profetizar"...)

3 comentários:

  1. na bíblia, nas notas de 20 dólares, nos sonhos, nas obras de Saramago, no itinerário do ônibus. podemos encontrar relações com ocorridos posteriores em qualquer um registro anterior ao fato.

    sabe-se que a imaginação humana é capaz de criar elos analógicos entre o viver do sapo e a profissão do fotógrafo.

    no horóscopo, onde, diariamente, as pessoas fazem escolhas, decidem caminhos, evitam relações com determinados "signos", bem como se aproximam de outros favoráveis, conforme as indicações dos "ASTROS", há as mesmas pseudo-profecias, e, como outras, todos os dias, elas não acontecem... mas quando "bate", é motivo para que os 'crentes' afirmem "meu signo estava certo!"...

    imaginei agora o Ensaio Sobre a Cegueira realizando-se, e o Saramago dizendo "Bem que eu falei"...

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  2. Acho que poucos vão apreender tão bem qto vc o conjunto das idéias expostas neste texto. (tomara q eu esteja enganado..rs)
    Muito Obrigado pelo complemento. =]

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  3. Olá Carlos, é o Marcelo, da Infraero. Prometi que daria uma passada e estou aqui. Bem... já há alguns anos abri mão do debate filosófico afim de procurar uma outra linha de busca, mais voltada a conexão a um conhecimento silencioso interior, uma tentativa de uma aproximação maior do sentimento chamado "intuição".

    Acredito que o pensamento, a mente, são limitados, e só podemos argumentar e filosofar, dentro do limite de nosso conhecimento adquirido, que se torna nosso "conteúdo". Então, com a mente, o pensamento e a linguagem, podemos justificar e defender qualquer coisa que esteja dentro deste conteúdo. E para uma tese, sempre haverá uma antítese. Este é o mundo dos opostos da mente dual, que está sempre a se debater neste interim.

    Seu texto é lógico, bem escrito e claro. E muito válido também. Os defensores ardorosos de crenças, poderiam rebatê-lo com muitos argumentos. E haveria outros tantos argumentos para defender suas colocações.

    Bem, sustento que há algo mais, oculto. E que a verdade, seja qual for, sempre será muito mais assustadora do que sequer imaginamos. Mas estas são minhas crenças, rs... meu "conteúdo", porque penso que cada um tem o seu, mesmo achando em dado momento, que tem uma mente livre.

    Além do "conhecido", de nosso eu, dever haver um "desconhecido", talvez lá esteja esse Deus, que tanto ouvimos falar...

    Espero que meu comentário tenha alguma validade e tenha a haver com o contexto de sua publicação...

    Um grande abraço.

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