quinta-feira, 14 de julho de 2011

A RAZOABILIDADE DAS LEIS RELIGIOSAS

Outro dia, tive uma deliciosa discussão com uma colega de trabalho que é Testemunha de Jeová. Acho que houve interesse mútuo, pois, pelo seu discurso, pude notar sua intenção de 'evangelizar-me'; e eu queria levantar alguns questionamentos sobre sua adesão às leis impostas pela religião cristã, mais especificamente, as da sua instituição. De súbito, lembrei-me que, há muito tempo, havia sido interpelado por um jovem dessa mesma vertente religiosa. Deixei ele falar tudo o que quisesse e somente escutei com atenção. Religioso, que eu era, minha fala seria vã porque se tornaria precisamente um embate de dogmas. Já naquele tempo eu sabia que isso não nos leva a lugar algum. Então, desta vez, vi uma grande oportunidade de fazer diferente, e em um dado momento da conversa com minha colega perguntei "É verdade que vocês não podem doar, nem receber sangue?". Ela deu um sorrisinho sarcástico e disse que era só questão de tempo pra eu entrar nesse assunto. Para ela, era coisa previsível. Tava acostumada. Logo, respondeu positivamente, dizendo "Sim, Deus proíbe a transfusão de sangue." Eu quis imediatamente saber por que deus proibiria alguém ter a chance de ser salvo da morte, por intermédio do sangue de outro. Tive que ouvir a alegação de que isso era uma lei de Deus. Está escrito! Ela não havia entendido que eu desejava saber a razão pela qual deus exigiria tal coisa. Qual era a razoabilidade da lei. Me expliquei, e, então, ela disse: "O sangue é a Vida, que a cada um Deus dá". Fiquei na dúvida se isso era a razão que ela pressupunha, ou simplesmente mais um versículo bíblico. Seja o que fosse, me pus a pensar a respeito. Fiquei aturdido com o fato de alguém ter a oportunidade de salvar a vida de outro, sem maiores ônus, e não o fazer. Mal tinha começado a digerir a informação, e ela emendou: "Para nós,  mais vale morrermos e entrarmos no Paraíso, aqui na Terra (sic!), do que vivermos e ao final sermos condenados". 
Primeiro, o sangue é a vida. Segundo, cada um tem a sua. Certo! Mas, ao doar parte do meu sangue para que um outro possa viver, eu não perco a minha vida, ela continua comigo. E melhor, aquele que porventura estivesse num leito de morte, agora também poderá viver. Não há perda, só ganho. Procurei algo que ferisse os princípios de justiça, integridade, liberdade ou ética. Mas, não. Não havia nenhum mal que pudesse dar respaldo àquela justificativa. Suspeitei que esta não tivesse passado pelo crivo da razoabilidade, e lancei a questão: "Do que foi dito que deus havia dito, você ousa questionar, ou, há tácita aceitação, só porque tratar-se-ia de uma lei?" Porque se for assim, dá pra entender como muçulmanos extremistas podem detonar bombas em meio a uma multidão de pessoas inocentes. Pois, também nesse caso, a lei de deus vem acompanhada de uma promessa: a de um paraíso repleto de virgens. Ela arregalou os olhos. Não demorou muito, pra que o assunto descambasse da religião para a política. Acostumados que estamos com a sujeição às leis religiosas, sem nenhum posicionamento crítico, também, abaixamos nossas cabeças para as leis dos governos. Estas, que muitas vezes, não tem a menor razoabilidade. A associação não me foi difícil. Quando olho pra trás, vejo uma igreja cristã que dominava tudo, disposta a escalpelar qualquer um que fosse contrário as suas ordens. Todos, inclusive o Estado, comiam na sua mão. Thoreau disse uma vez que sai mais barato sofrer penalidades pela desobediência ao Estado do que se submeter as suas leis, injustas e infundadas. Eu poderia glosá-lo dizendo: Sai muito mais caro ignorar, por obediência às leis religiosas, a realidade das coisas boas do mundo e seus prazeres, do que ser supostamente condenado a um fantasioso lugar de eterno tormento e dor.

7 comentários:

  1. Marcelo de Araújo20 de julho de 2011 18:05

    Ah! Muito bom! Bem redigido, provocador, polêmico.

    No caso, o tema do post refere-se a aceitação sem refutação das leis impostas pelos livros sagrados, ou seja, o caminho fácil: "segui os mandamentos e serás salvo". Mesmo que por vezes a consciência chame à razão os fanáticos dogmáticos, estes em sí tomam esta voz como a voz do demônio ou tentação, rs. Não condeno os pequeninos, que por medo querem um caminho fácil para o céu. Seguir regras é mais fácil do que pensar, racionalizar. Quem consegue viver assim, acho até que é feliz. No final o que houver, será igual para todos após a morte. Dizem que voltamos ao Todo... Tomara, rs. Mas como sua tarefa é alimentar o questionamento, acho muito válido. Quem sabe algumas mentes despertam para uma realidade superior.

    Como tenho uma forte tendência ao espiritualismo, e pesquiso muito, penso que os preceitos religiosos, há muito tempo tiveram uma razão de ser. Quem os criou, sabia porque os estava criando. Provavelmente, humanos mais evoluídos, creio eu, que tinham acesso a outras realidades. No caso do sangue, como comentei com você, explica o esoterismo que devido a estar intimamente relacionado com o indivíduo, com seu corpo vital (a aura, que hoje já se estuda) e com sua individualidade corporal, doar este fluído implicaria em energeticamente compartilhar o Karma, que é a lei de causa e efeito, que supostamente seriam as punições ou recompensas pelo nosso comportamento na vida. Por isto a orientação para a não doação. Mas isto já entra no reino da Metafísica. Mas penso que acima de tudo há a lei da vida e do amor, que vem em primeiro lugar, onde deve se fazer de tudo para se salvar uma vida, custe o que custar.

    Quanto à política, é verdade, bem que valeria desafiar alguns preceitos, rs. Pena que hoje em dia o povo é mais bundão. Os tempos da revolução já eram, rs...

    ResponderExcluir
  2. Vc sempre tem o que dizer, Marcelo.
    Fico frustrado com pessoas que não conseguem refazer o caminho
    da minha contrução textual e ali depreender sentidos, às vezes, diferentes.
    Se deparam diante dela como quem já tivesse adquirido tal assimilação muito antes de lerem,
    e por isso, a tornam supérflua. Você não é desses, vc conversa com os textos, dele extrai e nele enxerta significações. Gosto disso..rs

    Abração

    ResponderExcluir
  3. Marcelo de Araújo20 de julho de 2011 18:10

    Acho que só pode haver discussão que acrescenta, que engradece, quando houver humildade interior e intelectual, porque por mais que achemos que saibamos, como já dizia o filósofofo, nada sabemos, então não temos direito de tomar nossa posição como final, mas sim tentar buscar o consenso e conteúdos que acrescentem e fermentem o diálogo.

    abraço.

    ResponderExcluir
  4. Do que escreveu, vc sabe que eu me afinizo bem à primeira parte neh?! Embora, em hipótese alguma, eu descarte a segunda. Como diz Gondim, um bom índice de amadurecimento é saber enxergar inconsistências em quem concordamos, e integridade ou outros valores naqueles que discordamos.

    =]

    ResponderExcluir
  5. Da minha parte, inconsistências sempre haverá, rs... visto que não me considero um ser lógico... Mas penso que o importante é compartilhamos nosso conteúdo, pois nessa ação agitamos nosso interior, o que gera reflexão.

    Oxalá outros se interessem e participem.

    Marcelo Araujo

    ResponderExcluir
  6. Oi Cah!Sdd! Como são as coisas...ontem eu estava justamente comentando esse assunto com o Milton aqui em casa.
    Não consigo entender certas imposições que as religiões colocam em prática (em prática poque seus "súditos" aceitam). E se por um acaso a(o) paciente fica numa situação de alto risco pq está precisando de doação de sangue, a família não permite pq a RELIGIÃo não permite, esse(a) paciente morre?
    O médico não pode fazer nada e então "assiste" seu paciente morrer, pq se faz a transfusão sem autorização da família, ele vai responder a um processo judicial por ter salvo a vida de uma pessoa sem a autorização da família, pq a vontade desta é que seu ente querido morra (e vai "direto" ao paraíso, como recompensa) e não sua sobrevivencia. É assim que posso interpretar a situação?
    É claro que ninguém em sã consciencia quer a morte de alguém querido, mas preferir morrer a ter seu sangue "contaminado" (por que a impressão que tenho é essa), acho que é demais pra qualquer pessoa que tenha um mínimo de discernimento.
    Não existe religião perfeita, certa ou errada, cabe a cada pessoa parar, pensar e analisar o que de fato nos faz tentar ser pessoas melhores e nos traz paz interior. A religião pode ser um instrumeno ou ferramenta para nos ajudar, mas ela não é e nem deve ser o único caminho para a felicidade, céu ou paraíso.
    A religião IMPÕE, Deus nos deu o livre arbítrio.
    Mas como bem disse o Marcelo, é mais fácil para algumas pessoas seguir regras que parar pra pensar, raciocinar, e pq não QUESTIONAR! O que é realmente importante, meu familiar vivo, com saúde ou deixar que ele morra para ir a um paraíso que ninguém de fato garante que existe? Minha consciencia vai ficar tranquila e em paz vendo meu familiar doente ou até morrer só pra não ter seu sangue "contaminado"?
    Um pouco de relexão o alguns pontos de interrogação não faz mal a ninguém!


    Adorei seu post! Aliás, adoro todos, dessa vez tive coragem de comentar...rsrsrs
    Bjs!

    ResponderExcluir
  7. Vc foi muito feliz no comentário. Agradeço sempre a oportunidade de gerar algum tipo de reflexão. Pode ter certeza que qualquer mínimo trabalho intelectual não é vão! Bjo

    ResponderExcluir

Insira seu comentário aqui